Cartazes de festas recebem críticas por machismo

Comuns no campus, diversos cartazes de festa retratam figuras femininas, em desenhos ou fotos. Por suas imagens insinuantes, tais cartazes são, por vezes, acusados de sexismo. Realizadas no último dia 17, duas festas trouxeram a tona essa discussão – a Anastácia, tradicional festa da ECA; e a CAM Rodeo Festival, organizada pelo Centro Acadêmico de Mecânica (CAM).

Segundo Rafael Sanches, diretor do CAM, um dos cartazes de divulgação da festa foi vandalizado. Considerado sexista, por trazer a silhueta de uma mulher com o quadril curvado, o cartaz teve a imagem feminina rasgada. De acordo com ele, essa não foi a primeira peça de divulgação do CAM a ser acusada de machismo: “Se olharmos os cartazes de festa, em geral existe uma tendência ao sexismo”, admite. “No entanto, quando um cartaz com apenas a silhueta de um homem e de uma mulher, é rasgado e acusado de machista, nos questionamos a respeito da validade dessas críticas”.

Para a aluna do quinto ano de veterinária, Andrea Santos, alguns desses cartazes remetem a piadas comuns no ambiente universitário, e são frequentemente mal interpretados: “Acho que a linguagem usada nos cartazes não é escolhida para ser ofensiva, e sim engraçada. Eles fazem parte da ‘cultura universitária’, assim como os hinos cantados no dia da matrícula”, relembra.

Estudante de jornalismo, Marjorie Rodrigues observa a questão com ressalvas. Citando o cartaz de uma festa da veterinária, em que uma enfermeira aparecia junto de um lobo “pronto para traçá-la”, Marjorie diz perceber a recorrência do estereótipo da mulher passiva, objeto de desejo: “A mulher está lá como um dos atrativos, assim como a tequila e o DJ.”

“É preciso criatividade para fugir de estereótipos”, diz psicóloga (fotos: Desconhecido/Livia Furtado)

“É preciso criatividade para fugir de estereótipos”, diz psicóloga (fotos: Desconhecido/Livia Furtado)

Imagem reforçada

Para Marjorie, o cartaz da Rodeo não é sexista, mas denuncia a recorrência de uma imagem de mulher “sensual”. Para a psicóloga Rachel Moreno, autora do livro “A beleza impossível – mulher, mídia e consumo”, isso se repete na mídia em geral, o que interfere na formação da subjetividade do indivíduo. Como resultado, mensagens sexistas passam despercebidas: “Se eu tenho cartazes e outdoors expondo mulheres sensuais, eu passo a entender que aquilo é valorizado socialmente”.

Aluno de publicidade da ECA, André Araújo entende que a questão deve ser relativizada. Diretor de criação da ECA Jr., uma das empresas júniores em atividade na escola, André participou da concepção do cartaz de divulgação da Anastácia, festa organizada pela empresa. Retratando uma garota de biquíni cercada por doces, o cartaz é claramente sensual. Segundo ele, o desafio da proposta, elaborada por duas estudantes, estava em não ser vulgar: “A gente ponderou qual era o publico, e viu como seria exposto. E então tentou trabalhar a foto como paródia de um filme conhecido (Beleza Americana) e que não fosse vulgar.”

Para Rachel, é possível trabalhar a sensualidade feminina sem ser machista. Mas isso é incomum: “Falta exercício de criatividade. A reprodução do estereótipo é mais simples do que pesquisar sobre a diversidade do que existe hoje. Mas os profissionais de publicidade têm de atentar para isso”.


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