Violência de gênero pauta discussões

Frente Feminista organizou a Semana de Combate à Violência Contra a Mulher em resposta a incidentes no campus

Na última semana, a Frente Feminista da USP organizou a Semana de Combate à Violência Contra a Mulher, para “aprofundar os debates sobre o tema, considerando diversos casos de violência que têm sido denunciados na universidade”. O ocorrido mais recente, que recebeu considerável cobertura da mídia, foi a tentativa de estupro de uma aluna da Escola Politécnica, na manhã do dia 8 de outubro. O suspeito não foi preso. A tentativa surpreendeu estudantes de toda a Universidade e ocorreu de modo inesperado: antes das oito da manhã no banheiro feminino no Departamento de Engenharia de Produção da Poli, local considerado ponto de passagem de inúmeras pessoas durante o dia e fiscalizado por câmeras que, entretanto, não estão funcionando.

Ninguém foi acusado formalmente pela tentativa de estupro e a USP, que investe grande parte de seu orçamento em segurança, tem sua própria Guarda e assinou um convênio com a PM após o assassinato de um aluno no campus, não se pronunciou. O ato de violência, ainda assim, fortaleceu debates sobre machismo e violência de gênero, especialmente contra a mulher como evidenciado no evento da Frente Feminista.

Machismo na Universidade

“A USP não é um universo à parte da sociedade. A reprodução de práticas machistas ocorre aqui como em qualquer outro lugar”, afirma Melissa Ribas, da Frente Feminista. Para ela, as ações onde o machismo mais se evidencia são agressões físicas e casos de estupro. “Uma reprodução menos clara de práticas machistas sentimos na estrutura de poder, que além de manter um autoritarismo, é bastante misógina, já que o cargos de decisão da universidade são hegemonicamente masculinos”.

Haydée Svab, do PoliGen (Grupo de Estudos de Gênero da Poli-USP), diz que a discriminação de gênero é mais frequente em situações em que é menos evidente. “No trato entre as pessoas a gente percebe menos. Acho que é onde acontece muito machismo. São as piadinhas, as cantadas. As pessoas não veem como machismo”.

A aluna da Escola Politécnica citou algumas provas do IntegraPoli, competição realizada no início de cada ano na faculdade, com o intuito de unir os calouros e os veteranos, como exemplo de “naturalização da cultura de violência contra a mulher”. Ela lembrou a atividade desse ano em que uma caloura, de biquíni, deveria ser atingida por elásticos. “Como não veem a relação entre isso e uma menina ser estuprada?”, questionou Haydée. Itens da gincana considerados absurdos, segundo a aluna, só foram retirados da lista da gincana depois de uma matéria do jornal O Estado de S. Paulo sobre o assunto.

Ainda assim, Haydée não considera que a Poli seja a faculdade mais machista da USP, como é frequentemente taxada pelos estudantes. “O machismo existe em todos os lugares. Mesmo em espaços com maioria de mulheres, há machismo, porque há mulheres machistas”, diz. O problema da Escola Politécnica, para ela, é numérico. “Quando as mulheres são minoria, as questões que as incomodam acabam sendo deixado de lado, porque é difícil juntar gente para combater essas atitudes e ações”, aponta.

Denúncias

Celso Lahoz Garcia, delegado titular do 93º Distrito Policial, para onde é encaminhada a maioria das denúncias relativas ao campus da capital, diz que relatos de estupro e de violência sexual são “raros”. “Chegam até nós brigas de casais no Crusp. Acontece também de a menina ir para uma festa, beber um pouco demais, pegar carona para casa e depois perceber que a roupa está um pouco virada. Ela pensa que foi abusada, mas não tem certeza. Mas isso ocorre fora do campus”.

Melissa, entretanto, fala de muitas denúncias informais e até mesmo boatos. “Sempre recebemos denúncias e relatos de mulheres que foram agredidas e violentadas sexualmente”. Segundo ela, essa foi uma das motivações para a organização da Semana de Combate à Violência Contra a Mulher. “Percebemos que a Frente estava agindo de forma muito pontual e reativa diante dessas denúncias”, acrescentou.

Muitas meninas decidem não denunciar uma agressão por medo ou vergonha. “Se a mulher decide denunciar ela passa por um processo bastante humilhante: vai até a delegacia da mulher, registra o BO, faz exame de corpo de delito e, em todo esse processo, é tratada com desconfiança como bem sabemos, e depois só resta esperar por alguma resposta da justiça”, afirmou Melissa.

Resposta

Logo após a tentativa de estupro na Escola Politécnica, o PoliGen escreveu um manifesto de repúdio à cultura do estupro. “Um homem, ao imaginar que uma mulher, por assim sê-lo, deve servi-lo sexualmente ou de qualquer outra forma, está sendo machista. O ocorrido com a estudante da Poli, e com tantas outras mulheres, foi um ato de violência de gênero e deve ser entendido e tratado como tal. A estudante não foi atacada por ter posses, por ser aluna, por ser sido descuidada ou qualquer outra justificativa que normalmente se usa. Foi por ser mulher”, diz o documento, que foi aprovado por 59% dos membros do Grêmio Politécnico, de acordo com a instituição estudantil. 20% rejeitaram a nota e 21% se abstiveram.

Para Melissa, a existência da Frente Feminista e de outros coletivos “é condição fundamental hoje para que o machismo seja combatido na USP”. “A Frente é hoje o espaço central para que nós mulheres sintamos que há na Universidade alguém preocupado com a nossa condição e que seja capaz de estar ao nosso lado. Enquanto houver violência machista e opressão estaremos lutando”, afirma.