O outro lado da influência dos NFTs

Com uma expansão surpreendente em 2021, o mercado de NFTs ainda é envolto por problemáticas e resistência popular

 

 

por Filipe Albessu Narciso

Arte: Filipe Albessu Narciso

 

Tradição há 94 edições, a revista estadunidense Time elege todos os anos sua “pessoa do ano”. O título é atribuído a quem, de acordo com a revista, realizou um maior impacto positivo ou negativo no ano que se finaliza. Em 2021, foi a vez do bilionário estadunidense e presidente da Tesla Elon Musk. A escolha foi baseada na sua influência em questões ligadas à tecnologia e inovação, mas também por ser uma personalidade ativa na internet. Musk é capaz de cultivar uma expressiva comunidade de seguidores fiéis que compartilham dos mesmos interesses e que acompanham suas recomendações e atividades em redes sociais.  

Dentre os interesses que Musk apresenta em suas redes, os criptoativos e criptomoedas são de grande destaque. Considerado um dos maiores entusiastas desses investimentos, a adesão pública do fundador da SpaceX nesse mercado o rendeu a criação de uma espécie de comunidade entre seus seguidores pela qual é conectada pelo cripto. Além disso, até mesmo a parceira mais recente de Musk, a cantora e produtora musical Grimes, também esteve envolvida na forma de criptoinvestimento conhecido como NFTs, sendo um dos primeiros grandes nomes do meio artístico a endossar os denominados “tokens não fungíveis”.

A influência dos mercados de cripto nos últimos anos obteve um crescimento exponencial e, nesse ano, os NFTs foram protagonistas. Apenas no primeiro trimestre de 2021, o mercado de NFTs comercializou um total de US$2,5 bilhões de dólares, um crescimento de aproximadamente 20 vezes em relação ao mesmo período do ano anterior. Essa explosão de influência dos NFTs foi o que fez o dicionário Collins eleger “NFT” como a palavra do ano de 2021.

Para além da influência econômica, o mundo dos NFTs possui uma subcultura própria hoje em dia. Comunidades surgiram ao redor desses investimentos, como as baseadas em tokens de colecionador tal qual a Bored Ape Yacht Club, uma coleção com mais de dez mil NFTs únicos de ilustrações de macacos. Os donos dessas ilustrações podem participar de festas particulares e costumam utilizar sua aquisição como avatares em redes sociais. Além disso, os NFTs atingiram outras formas de arte, como músicas e jogos NFTs, pelos quais já foram capazes de movimentar bilhões de dólares, e até mesmo englobando outras formas de conteúdo digital como memes.

Entretanto, essa forma de investimento não se desenvolveu sem críticas: desde os primeiros holofotes, os NFTs têm sido questionados por uma parcela expressiva da sociedade e da própria comunidade artística. Empresas e artistas sofreram boicotes por venderem ou somente declararem que iriam vender produtos em NFTs. Dentre as razões por trás das críticas, estão o impacto ambiental dessa tecnologia, o roubo de artes não autorizadas que são revendidas como NFTs, a desfavorabilidade do meio para artistas, a acessibilidade das obras, dentre outros pontos relevantes. Com tanto poder e influência na sociedade contemporânea, o mercado de NFTs tem criado uma polarização entre apoiadores e críticos.

Um meio rentável para um grupo seleto

De acordo com um estudo da Chainalysis, apenas uma pequena porcentagem dos participantes do mercado de NFTs concentra a maior parte dos lucros. Esses indivíduos são recompensados por meio de uma prática denominada whitelisting, que é o hábito de oferecer a um determinado público a oportunidade de comprar novos NFTs a um preço significativamente mais baixo que outros usuários. Os dados levantados pelo relatório apontam que é consideravelmente improvável obter grandes retornos nas transações sem participar dessa prática.

Para o ilustrador Henrique Lindner, a questão dos NFTs tem sido inevitável em sua profissão desde o primeiro semestre deste ano. “Mesmo se eu quisesse nunca entrar em contato com isso, e eu realmente tentei, seria impossível, dada as proporções que os NFTs tomaram dentro da comunidade artística”, comenta. Lindner expressa claramente em suas redes sociais sua desaprovação em relação a NFTs. “Desde o início eu me posicionei contra o ‘mercado’ de NFTs. Para mim, é um conceito que não faz sentido: criar uma escassez artificial de obras de arte extremamente reproduzíveis”.

A fala de Lindner expressa uma diferença expressiva entre a denominada criptoarte das criptomoedas: as obras em NFTs não são reproduzíveis ou, de certa forma, iguais. Ou seja, é possível trocar uma moeda de bitcoin por outra moeda exatamente igual, mas o mesmo é impossível com os NFTs, pois o conceito atribuído ao NFT é de que o token seja único.

Imagem: Freeimages/flaivoloka

 

Ainda assim, essa ideia de singularidade e exclusividade dos NFTs é abertamente questionada: essas formas de arte digitais ainda podem ser reproduzidas de alguma forma. Capturas de tela e outras ferramentas capazes de permitir sua reprodução expressam como a ideia atribuída de propriedade exclusiva se reduz a uma questão de crença. Ainda que o arquivo seja, a sua medida, único, em decorrência da tecnologia blockchain, a propriedade mais evidente, no caso de ilustrações a visual, ainda pode ser infinitamente reproduzida, o que reforça o caráter especulativo dos NFTs. 

Com uma série de grandes empresas se envolvendo com o mercado de NFTs, muitas sem sequer estarem ligadas com o meio artístico, como McDonald’s, Discord e Ubisoft, a questão do caráter acessível e descentralizado que é difundido por alguns sobre os NFTs se torna questionável. “É no mínimo contraditório”, aponta Lindner, “empresas gigantes, com muito mais capital e poder do que qualquer indivíduo, centralizando e lucrando em cima de especulação de ‘arte’”, comenta. Para o ilustrador, pontos como esse explicitam o verdadeiro caráter do mercado de NFTs: “é mais sobre especulação financeira do que sobre arte”.

E é nesse ponto que a existência de clubes privados e comunidades de NFTs como a Bored Ape Yacht Club possuem uma relevância para o mercado como um todo: atraem atenção do público e visam a manter uma percepção positiva para os negócios. “Essas comunidades foram criadas para dar um ar de exclusividade, escassez e principalmente urgência”, aponta Lindner. Esses pontos podem compelir alguém a se juntar em decorrência da possibilidade de lucro e status. E os macacos coloridos e decorados da Bored Ape Yacht Club tem se propagado de diversas formas, seja por famosos e empresas, como a revista Rolling Stone que criou duas capas especiais NFT em parceria com a comunidade, ou por meio da criação de séries animadas e até mesmo com o desenvolvimento de um jogo NFT.

Segmento de um dos NFT especiais criados por meio da parceira da revista Rolling Stone com a Bored Ape Yatch Club. Imagem: Bored Ape Yatch Club e Rolling Stone

 

Os dilemas do cripto e da criptoarte

Com a popularização e difusão de novas tecnologias, uma crença foi criada em torno dos criptoativos que os apontava como investimentos acessíveis para todos. Entretanto, a ideia de uma democratização dessas formas de investimento são frequentemente contestadas. Elon Musk, por exemplo, se envolveu em diversas polêmicas por, teoricamente, controlar a valorização e desvalorização de criptomoedas à sua própria vontade por meio das redes sociais. 

Quanto à ideia de um novo mercado de arte a partir dos NFTs, que beneficiasse artistas e fosse democrático, a realidade mostra que as plataformas de vendas possuem taxas próprias, assim como galerias, e os grandes ganhadores são artistas já consagrados e reconhecidos, enquanto artistas pequenos ainda passam pelos mesmos desafios em decorrência de falta de conexões e influência. Isso tudo sem considerar as críticas quanto aos impactos ambientais que envolvem a tecnologia de blockchain utilizada para a criação dos NFTs.

Henrique Lindner especifica que não mantém julgamentos sobre os artistas que se envolveram com os mercados de NFTs. “Viver de arte é difícil”, especifica, “existem artistas que estão vivendo e complementando a renda com venda de NFTs”. Ainda assim, o ilustrador discorda da proposição de que os NFTs sejam uma forma de solução para os desafios das condições de vida dos artistas.

Baseada puramente em contratos e trocas, a maioria das plataformas famosas de NFTs se baseiam em uma plataforma de blockchain conhecida como Ethereum e sua moeda Ether. A moeda, no entanto, não possibilita compras, apenas trocas, promovendo uma espécie de sistema de transações baseado em compras e vendas similares a um esquema de pirâmide. Para fazer o esquema funcionar, é necessário que mais dinheiro entre no sistema e, consequentemente, que mais pessoas se unam ao sistema. Essa forma de pirâmide, no entanto, não possui um topo, apenas o sistema de trocas e a promessa de investimentos com retornos fantasiosos, que a qualquer flutuação pode fazer inumeráveis vítimas.  

Em um mundo cada vez mais competitivo, artistas são vulneráveis a promessas como as do NFT por serem frequentemente desvalorizados, tanto economicamente quanto culturalmente. Por essa razão a criação de um discurso de salvação a partir dos NFTs é de fácil difusão. Lindner reforça que os NFTs não criaram uma nova forma de produzir arte ou uma nova temática, servindo apenas como uma forma de compra e venda envolta em polêmicas e dúvidas para artistas e compradores. O ilustrador não se opõe totalmente a utilização da tecnologia para a criação de criptoartes, mas sim espera que essas questões que a envolvem atualmente sejam devidamente reconhecidas e resolvidas. “No futuro, quem sabe, as coisas mudem”.