Documentos obtidos pelo JC atestam necessidade de melhorias para obtenção de laudo do Corpo de Bombeiros; corporação fala em “infração grave”

Por Filipe Moraes, Gabriela Barbosa e Tainá Rodrigues*
O Hospital Universitário (HU) do campus Butantã enfrenta problemas de infraestrutura e projetos inacabados desde 2016. A carência faz com que o prédio não possua o Auto de Vistoria do Corpo de Bombeiros (AVCB) — documento que atesta que uma edificação cumpre as normas de segurança contra incêndios. É uma “infração grave”, segundo o Corpo de Bombeiros. Até hoje, a USP gastou cerca de R$ 8 milhões para tentar resolver o problema, mas ainda há despesas não orçadas para que o prédio tenha todas as estruturas necessárias.
Enquanto isso, o Conselho Universitário da USP aprovou, no último dia 3 de junho, a ampliação dos campi de São Carlos e Ribeirão Preto por meio da aquisição de dois terrenos. Em São Carlos, a gestão de Carlos Gilberto Carlotti Jr. pretende comprar um terreno de 5 mil m² avaliado em cerca de R$ 14 milhões. A medida procura criar um Complexo de Inclusão e Pertencimento, para ampliar a assistência social nas áreas da saúde.
Em Ribeirão Preto, o projeto visa adquirir um terreno de aproximadamente 796 mil m² por cerca de R$ 281 milhões. A obtenção do espaço tem como objetivo ampliar o Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto (HCRP), uma autarquia estadual que não é de responsabilidade da USP desde 2011.
Entidades como o Sindicato dos Trabalhadores da USP (Sintusp) questionam as aquisições em face da precariedade do HU. Além das denúncias de filas e demora no atendimento, a instituição também acumula pedidos de reforma negligenciados pela reitoria.
Segundo relatórios emitidos pela Superintendência do Espaço Físico (SEF), as reformas são necessárias para garantir a segurança de pacientes e funcionários do hospital. O principal pedido é da atualização da estrutura para prevenção e combate a incêndios, uma vez que a instalação elétrica do hospital apresenta risco – por essa e outras questões, os bombeiros consideram que o prédio não possui as condições de segurança necessárias para funcionar.
A USP foi notificada pelo Ministério Público (MP) sobre essa situação em 2016 e, até 2021, nenhuma medida havia sido tomada em relação às obras. Naquele ano, a primeira intervenção foi a construção de escadas de concreto para garantir uma rota de fuga. A obra ficou pronta em 2023, mas, apesar disso, o hospital ainda não tinha a estrutura ideal para garantir o AVCB. Além da reforma na parte elétrica, ficaram pendentes a instalação de hidrantes e luzes de emergência, além da construção de escadas de ferro para atender à saída de emergência das UTIs e demais andares do complexo.
Em maio de 2025, a SEF abriu um processo de licitação para “reforma das instalações elétricas e Sistema de Proteção contra Descargas Atmosféricas (SPDA)”. O preço que a USP pagará à empresa ganhadora da licitação é de aproximadamente R$ 3,2 milhões. Procurada pelo JC, a SEF afirmou que as reformas não eram de sua responsabilidade. No entanto, a mesma entidade afirma em seu próprio site que “a Superintendência do Espaço Físico da USP é o órgão responsável por garantir o uso e a expansão física harmônica das edificações da Universidade, bem como preservar o patrimônio existente”.
Pacientes
O HU é um dos principais pontos de atendimento médico para a comunidade universitária e moradores dos arredores. Celso Fidalgo, estudante de Engenharia Naval da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (Poli-USP), frequenta o hospital desde 2023. Ele relata que a experiência tem sido mista. “O hospital tem filas imensas, falta de profissionais e, às vezes, você não é atendido. Mas o cuidado prestado é muito bom, os médicos são bem-humorados, pensam em tudo.”
Em uma das vezes em que precisou utilizar o HU, Celso conta que foi desestimulado a esperar por atendimento. “Os funcionários me avisaram que a fila de espera estava tão grande que nem valia a pena entrar umas 10h da manhã”, relatou. “Então, você já precisa ter uma noção de que, se quer ser atendido, tem que chegar bem cedinho. Senão, pode ter que esperar outro dia.”
Louisa Coelho, aluna de Jornalismo da Escola de Comunicações e Artes (ECA-USP), passou por uma situação semelhante. Ela procurou o pronto atendimento após sofrer um trauma no rosto. “Dei entrada no hospital ao meio-dia, fui chamada para a triagem por volta de 13h e às 14h20 passei com a médica”, conta. “Havia poucas pessoas trabalhando, e as pessoas que trabalhavam precisavam cuidar de muitos pacientes ao mesmo tempo.”
O Jornal do Campus questionou por quais razões a USP preferiu investir na extensão dos campi no interior ao invés de melhorar os serviços fornecidos em São Paulo. Como resposta, o HU relatou que “essa é uma decisão da Reitoria e do Conselho Universitário”. A reitoria, por outro lado, afirmou que essas questões foram abordadas anteriormente no Jornal da USP. A reportagem não traz as respostas. O JC voltou a abordar a reitoria, que não retornou até o fechamento.
*Com edição de Isabel Teixeira e Jenny Perossi
