Projeto da Letras fala da ciência por trás dos nomes de lugares e revela como a política interfere na memória urbana

Por Gabriela Cecchin*
Você conhece a ponte William Salem? Sou capaz de apostar que sim, mas talvez não esteja ligando o nome à obra – afinal, a alcunha é mais famosa: Ponte Cidade Universitária, que liga o campus Butantã à praça Panamericana. Quase ninguém notou, mas o lugar mudou de nome em 2017. A nova denominação foi aprovada na Câmara dos Vereadores de São Paulo, em projeto de autoria de Claudinho de Souza (PSDB), para homenagear o prefeito interino que substituiu Jânio Quadros em 1954. Mas por que mexer em um nome já estabelecido?
“Essas coisas são muito rápidas na cidade. A gente não percebe”, explica a doutoranda Adriana Lima, coordenadora das equipes de pesquisa e roteiro do podcast NomeAr, um projeto de extensão da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH-USP).
De acordo com Adriana, que estuda os nomes das pontes de São Paulo desde 2009, há um fenômeno em curso denominado “inflação toponímica”. O termo, cunhado por Patrícia Carvalhinhos, professora doutora que idealizou o projeto, descreve o processo em que nomes já existentes são estendidos com novas homenagens — muitas vezes sem qualquer participação da população ou consulta especializada.
“Na verdade, o que se busca com isso, às vezes, é fazer uma troca política. Você usa o nome como moeda de troca”, afirma Adriana. “É muito comum vermos projetos de lei que propõem nomear pontes, viadutos, praças… Às vezes o vereador se orgulha de ter apresentado 400 projetos, e a maioria é disso.”
Para além de homenagens pessoais, essa prática gera confusão urbana e apaga significados históricos. Em seus estudos, Adriana cita a Ponte do Piqueri, rebatizada como Ponte Piqueri Joelmir Beting, e a antiga Ponte Cidade Jardim, cujo nome original foi removido por completo em 1995, quando se tornou Ponte Engenheiro Roberto Rossi Zuccolo. “É sempre político. E o que se perde é a memória da cidade”, diz.
Da academia ao Spotify
São essas e outras questões que o podcast NomeAr pretende trazer à tona. Ele é coordenado pela idealizadora Patrícia, referência no campo da toponímia — o estudo dos nomes de lugares.
“Toda a linguagem desse podcast pretende atingir o jovem que está nos últimos anos no ensino fundamental, no ensino médio”, explica Patrícia. “É uma maneira de mostrar que o conhecimento produzido na universidade também pode ser assimilado por quem está de fora.”
Adriana, que atua há quase 20 anos como professora da rede pública, levou o conteúdo para o passageiro “Novo Ensino Médio” – proposta de reforma do secundário lançada por Temer e semi-enterrada por Lula – por meio de disciplinas eletivas, como “Ruas e Memória”. Em 2020, durante a pandemia, chegou a oferecer aulas à distância com esse foco.
“Os alunos passaram a olhar para os nomes de seus bairros, das ruas, e perceberam que aquilo tinha uma história. Às vezes o nome que era motivo de piada passou a ser motivo de orgulho”, conta. “Tivemos até excursão ao Museu da Imigração, onde eles puderam buscar a origem dos próprios nomes.”
O projeto do podcast surgiu durante a pandemia, quando Patrícia percebeu o potencial dos áudios e vídeos como ferramenta didática. “Foi aí que eu tive a ideia desse programa de divulgação científica”, lembra. “O podcast está dentro de um projeto maior, que inclui canal no YouTube e até vídeos curtos baseados em teses e dissertações.”
Mas foi a curricularização da extensão na USP que deu o empurrão final. O projeto é uma Atividade Extensionista Curricular (AEX) com estudantes de diferentes cursos, como Letras, Ciências Sociais e até Biológicas. O grupo se dividiu entre identidade visual, roteiro, edição, redes sociais e entrevistas externas.
“Hoje minha função no projeto é acompanhar cada uma dessas equipes e garantir que haja coordenação entre elas”, explica Sofia Pereira, graduanda em Ciências Sociais e bolsista PUB. “A toponímia transcende a linguística, é interdisciplinar: envolve antropologia, história, geopolítica… nos faz estranhar os nomes que permeiam nosso cotidiano.”
“Entender o significado por trás dos nossos nomes de família, dos nomes das ruas, das estações, das cidades… o NomeAr busca apresentar aos ouvintes esse universo que é tão rico”, comenta.
No primeiro episódio do NomeAr, o público vai conhecer o conceito de onomástica e se deparar com perguntas provocativas: o que é um nome? Para que serve? Por que nomes mudam? A ideia é, aos poucos, discutir casos como o da Praça da Liberdade África-Japão, a tentativa frustrada de rebatizar o Parque Ibirapuera como “Parque Michael Jackson” e até as vendas de naming rights no metrô, como “Estação Saúde-Ultrafarma”.
O plano, agora, é expandir o podcast e lançar episódios sobre antroponímia (nomes de pessoas), nomes indígenas e outros temas sugeridos pelo público. As etapas de produção, roteiro e redes sociais têm sido desafios práticos para todos. “Fizemos reunião até em feriado”, brinca Patrícia. “E o TikTok já teve visualizações até da Turquia.”
Assista ao primeiro episódio a seguir:
*Com edição de José Adryan
