
Por Bruno Vaiano*
Dentre os feitos do grego Eratóstenes, encarregado de chefiar a Biblioteca de Alexandria dois séculos antes de Cristo, o mais célebre foi calcular a circunferência da Terra. Ele determinou o dado a partir do comprimento e do ângulo das sombras geradas pelo Sol em duas cidades localizadas em diferentes latitudes.
Na época, essa era uma informação inédita. Portanto, caso houvesse jornalistas no mundo helênico, eles teriam registrado em seus pergaminhos noticiosos que, “de acordo com um catedrático da Biblioteca de Alexandria, a Terra tem entre 39.060 km e 40.320 km de circunferência”.
Dois milênios depois, porém, não é mais necessário atribuir um dado desse tipo a uma fonte. De fato, seria cômico escrever “‘Terra tem 40.075 km de circunferência’, afirma Nasa”. O planeta tem o tamanho que tem e não mudará tão cedo — Eratóstenes, perceba, já passou muito perto da medição correta. Usar uma citação direta ou indireta nesse contexto faz parecer que há dúvidas em torno de um dado que, na verdade, é consenso científico.
Um caso didático de “afirma a Nasa” ocorre na p.3 da edição 549 do Jornal do Campus. Reproduzo o trecho a seguir: “A professora Patrícia Amparo, da Faculdade de Educação da USP, lembra que o Enade ‘faz parte do Sistema Nacional de Avaliação da Educação Superior. Ele funciona segundo ciclos de avaliação e, a cada três anos, alguns cursos participam, mas no caso das licenciaturas a prova passou a ser anual’”.
Invocar a autoridade de uma professora doutora para descrever o calendário de uma prova é o que uma colega de trabalho querida chama de “matar uma barata com uma bazuca” (rs). Bastaria checar o site do Enade ou acionar a assessoria de imprensa do MEC por e-mail. Além disso, Amparo não pode “lembrar” o leitor de uma informação que não apareceu antes no texto – na hora de emoldurar aspas, um simples “diz” é garantia de evitar tropeços como esse.
Citações devem entrar no texto jornalístico de maneira estratégica, para veicular emoções, opiniões e outras particularidades que apenas aquele entrevistado pode oferecer — como uma informação difícil de obter, uma opinião interessante ou uma tirada espirituosa. É o caso, por exemplo, do deboche sutil da fonte Renato Cymbalista, da PRIP-USP, no fecho da reportagem “Guerra de cartazes” (p.6).
A quantidade de entrevistados e citações diretas que aparece em uma matéria não é sinônimo de qualidade. Evite “citações culposas”: quando não há intenção de citar, e sim de desfilar apuração. Cabe aos editores, em última instância, estudar qual é a melhor forma de ocupar o espaço limitado das páginas (lembre-se da peculiar observação de Jerry Seinfeld: “Já percebeu que, não importa o que aconteça no dia, sempre cabe no jornal?”). Paráfrases — reescrever nas próprias palavras — são uma estratégia válida e importante para obter um texto claro e conciso.
Notas finais: perfeito o trabalho de diagramação e ilustração na matéria “A raiz do problema”, em que uma árvore fantasma decora o abre e os anéis de seu tronco dão graça aos gráficos de barras. Vale à equipe se atentar, porém, à distribuição das pautas no espelho: a matéria que aparece logo em seguida (“Ranking elenca soluções para conter crise climática”) também fala de áreas verdes.
Por fim, excelente apuração sobre o fim melancólico da Poli em Santos. Senti falta apenas de um parágrafo de contexto sobre as razões para a baixa procura do curso de Engenharia de Petróleo: ela teria a ver com as frustrações do pré-sal após a popularidade desse tema na década de 2010 — ou, talvez, com a transição energética?
*Bruno Vaiano é editor no Jornal da Unesp. Foi editor-chefe da revista Superinteressante e International Science Reporter Fellow da Associação Americana para o Avanço da Ciência (AAAS). Tem passagens pelo Instituto Questão de Ciência (IQC) e pelas revistas Galileu e Você S/A.
