{"id":46605,"date":"2025-12-15T17:49:51","date_gmt":"2025-12-15T20:49:51","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/?p=46605"},"modified":"2026-01-13T12:31:44","modified_gmt":"2026-01-13T15:31:44","slug":"o-eco-do-medo-operacoes-policiais-no-rio-de-janeiro-causam-inseguranca-publica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2025\/12\/o-eco-do-medo-operacoes-policiais-no-rio-de-janeiro-causam-inseguranca-publica\/","title":{"rendered":"O eco do medo: opera\u00e7\u00f5es policiais no Rio de Janeiro"},"content":{"rendered":"\n<p><em>Megaopera\u00e7\u00f5es geram debates sobre efici\u00eancia no combate ao crime organizado<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image is-style-default\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/DSC_0646-1024x683.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-46691\" srcset=\"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/DSC_0646-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/DSC_0646-480x320.jpg 480w, https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/DSC_0646-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/DSC_0646-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/wp-content\/uploads\/2025\/12\/DSC_0646-2048x1365.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Foto: Tha\u00eds Santana\/JC<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p>Por Clara Viterbo e Clara Zamboni*<\/p>\n\n\n\n<p>No dia 28 de outubro de 2025, 2.500 agentes das pol\u00edcias civil e militar do Rio de Janeiro entraram nos complexos do Alem\u00e3o e da Penha, na zona norte da capital fluminense, para dar in\u00edcio \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Conten\u00e7\u00e3o. Planejada pelo Governo Estadual do Rio de Janeiro, sob comando de Cl\u00e1udio Castro, o objetivo era capturar lideran\u00e7as do Comando Vermelho e conter a expans\u00e3o do crime organizado na regi\u00e3o. No primeiro dia de atividade, a opera\u00e7\u00e3o foi classificada como a mais letal da hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Foram 99 presos e 122 mortos, dentre eles, 117 suspeitos e 5 policiais. Em entrevista ao <strong>Jornal do Campus<\/strong>, Marcelo Rocha, procurador de Justi\u00e7a do Rio de Janeiro, afirma: &#8220;Essa foi uma opera\u00e7\u00e3o extremamente bem planejada durante aproximadamente um ano. Eram cem mandados de pris\u00e3o e de busca e apreens\u00e3o contra os integrantes da fac\u00e7\u00e3o criminosa mais perigosa do Rio de Janeiro, voc\u00ea n\u00e3o vai conseguir cumprir isso com flores e sorrisos\u201d. Mesmo com 99 pris\u00f5es efetuadas, dos 100 mandados de pris\u00e3o iniciais, apenas 20 foram cumpridos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Viol\u00eancia em escala<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Massacre. Foi assim que o pesquisador do N\u00facleo de Estudos da Viol\u00eancia da USP (NEV-USP), Daniel Edler, descreveu a opera\u00e7\u00e3o. Por defini\u00e7\u00e3o, ele explica que em conflitos de mata fechada, como foi a opera\u00e7\u00e3o, \u00e9 normal que haja entre 1 e 4 feridos para cada morto. \u201cQuando ultrapassa isso, h\u00e1 ind\u00edcios claros de execu\u00e7\u00e3o, massacre ou chacina\u201d, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os policiais, foram identificados 5 mortos e 13 feridos, o que confere uma raz\u00e3o de 1 morto para cada 2,6 feridos. J\u00e1 pelo lado dos civis, a propor\u00e7\u00e3o se inverte, com 117 mortos e 23 feridos, segundo boletim da Diretoria T\u00e9cnico-Assistencial da rede hospitalar do Rio de Janeiro \u2014 uma raz\u00e3o de aproximadamente 5 mortes para cada ferido.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Para Marcelo Rocha, n\u00e3o houve irregularidade: \u201cZero efeito colateral. Com a triste exce\u00e7\u00e3o dos cinco policiais, que morreram heroicamente no cumprimento do dever, todos eram criminosos, apesar das tentativas de manipula\u00e7\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo lista divulgada pela Pol\u00edcia Civil do Rio de Janeiro, de 115 dos 117 civis identificados, 95% tinham v\u00ednculo comprovado com o Comando Vermelho. A pasta informa que 97 dos mortos tinham \u201chist\u00f3rico criminal relevante\u201d, enquanto 17 n\u00e3o tinham qualquer passagem pela pol\u00edcia. Desses 17, doze apresentavam \u201cind\u00edcios\u201d de liga\u00e7\u00e3o ao tr\u00e1fico. N\u00e3o h\u00e1 transpar\u00eancia, por\u00e9m, quanto \u00e0 classifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cEssa opera\u00e7\u00e3o deu um preju\u00edzo substancial ao Comando Vermelho\u201d, complementa Rocha. Em contraste, Edler descreve a situa\u00e7\u00e3o como pouco impactante: \u201cO que fizeram, na verdade, foi matar pessoas ligadas a hierarquias mais baixas no tr\u00e1fico e alguns, de fato, l\u00edderes ou pessoas relevantes. O que o governo falou como grande marco hist\u00f3rico, na verdade, foi mais uma cosquinha no crime do Rio.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><strong>A vis\u00e3o de quem fica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Para chamar uma opera\u00e7\u00e3o de sucesso, o mais importante \u00e9 observar resultados proporcionais na sociedade, como diminui\u00e7\u00e3o da criminalidade, viol\u00eancia urbana e controle do crime sobre comunidades. Informa\u00e7\u00f5es como essas, at\u00e9 o momento do fechamento desta edi\u00e7\u00e3o, n\u00e3o foram apresentadas ao p\u00fablico.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>No dia seguinte \u00e0 incurs\u00e3o, aulas em escolas e universidades foram canceladas e \u00f4nibus pararam de circular por 12 horas. Edler destaca tamb\u00e9m os preju\u00edzos psicol\u00f3gicos e materiais causados aos moradores das comunidades, que perderam eletrodom\u00e9sticos, m\u00f3veis e at\u00e9 casas e estabelecimentos em meio aos tiros. Nos dias seguintes, a vida retomou normalmente, enquanto o crime continua instalado e operando na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Em meio \u00e0s discuss\u00f5es sobre efic\u00e1cia da opera\u00e7\u00e3o, existe mais uma vari\u00e1vel: o olhar da popula\u00e7\u00e3o. O levantamento mais recente do DataFolha revela que 57% dos moradores do Rio concordam total ou parcialmente com a afirma\u00e7\u00e3o de que a megaopera\u00e7\u00e3o foi um sucesso. Algo semelhante aconteceu com o \u00edndice de aprova\u00e7\u00e3o do governador Cl\u00e1udio Castro, que subiu de 31% para 40% depois da investida.<\/p>\n\n\n\n<p>Com a aprova\u00e7\u00e3o do p\u00fablico, o plano do Governo do Rio de Janeiro \u00e9 seguir com mais fases da Opera\u00e7\u00e3o Conten\u00e7\u00e3o e planejar novas opera\u00e7\u00f5es para sufocar as fac\u00e7\u00f5es que dominam territ\u00f3rios na capital.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Espet\u00e1culo do medo<\/strong>&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Em 27 de junho de 2007, \u00e0s v\u00e9speras dos Jogos Pan Americanos, sediados no Rio de Janeiro, a Pol\u00edcia Militar e a For\u00e7a Nacional de Seguran\u00e7a realizaram uma megaopera\u00e7\u00e3o no Complexo do Alem\u00e3o que deixou 19 pessoas mortas e dezenas de outras feridas no que foi cunhado como \u201cChacina do Pan\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2014, no ano em que o pa\u00eds recebeu a Copa do Mundo, 580 pessoas foram mortas por policiais no estado do Rio, um aumento de mais de 40% em rela\u00e7\u00e3o aos dados do ano anterior.<\/p>\n\n\n\n<p>Em 2025, o Rio de Janeiro inicia a megaopera\u00e7\u00e3o mais letal do pa\u00eds, duas semanas antes do in\u00edcio da 30\u00aa Confer\u00eancia das Na\u00e7\u00f5es Unidas sobre Mudan\u00e7as Clim\u00e1ticas, a COP 30, que teve eventos na capital fluminense, e meses antes do in\u00edcio da campanha de Cl\u00e1udio Castro para senador.<\/p>\n\n\n\n<p>O objetivo inicial de muitas dessas opera\u00e7\u00f5es \u00e9 reduzir a criminalidade. Entretanto, uma pesquisa realizada pelo Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos (GENI) da Universidade Federal Fluminense (UFF), avalia que, durante o per\u00edodo entre 2007 e 2019, a ocorr\u00eancia acima da m\u00e9dia de crimes contra a vida e contra o patrim\u00f4nio coincide com per\u00edodos de grande incid\u00eancia de opera\u00e7\u00f5es policiais. Ou seja, o uso da for\u00e7a policial n\u00e3o necessariamente traz resultados positivos para a sociedade e, mesmo assim, se mant\u00e9m.<\/p>\n\n\n\n<p>A professora do Departamento de Seguran\u00e7a P\u00fablica da UFF, Jacqueline Muniz, explica ao JC como funciona esse instrumento de for\u00e7a: \u201cA pol\u00edtica se beneficia da inseguran\u00e7a da popula\u00e7\u00e3o. As pessoas querem se sentir seguras, ent\u00e3o, eles transformam toda opera\u00e7\u00e3o em um espet\u00e1culo, para mostrar \u2018estamos aqui para te proteger e esses s\u00e3o os bandidos que tiramos de perto de voc\u00eas\u2019.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Opera\u00e7\u00f5es policiais s\u00e3o uma resposta a uma demanda que existe na sociedade, de combater o sentimento de ilegalidade e criminalidade. Mas, como destaca Edler, essa percep\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 desconectada da realidade: \u201cN\u00e3o existe nada no Rio de Janeiro nesse momento, quanto a roubos e furtos, que seja fora da curva e que demandava uma opera\u00e7\u00e3o t\u00e3o grande como a que foi feita no Alem\u00e3o e na Penha.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>Para Muniz, \u00e9 preciso assimilar as opera\u00e7\u00f5es como instrumentos de for\u00e7a e que essas n\u00e3o podem ser dissociadas de suas implica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas: \u201cO problema todo \u00e9 que, basta olhar a hist\u00f3ria para perceber que o protetor de hoje, que \u00e9 conhecido pela amea\u00e7a e se vende com a moeda de troca da viol\u00eancia, pode ser o seu simp\u00e1tico tirano de amanh\u00e3.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>*Editado por Fernanda Franco <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"Megaopera\u00e7\u00f5es geram debates sobre efici\u00eancia no combate ao crime organizado Por Clara Viterbo e Clara Zamboni* No dia 28 de outubro de 2025, \n<a class=\"moretag\" href=\"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/2025\/12\/o-eco-do-medo-operacoes-policiais-no-rio-de-janeiro-causam-inseguranca-publica\/\"> [...]<\/a>","protected":false},"author":104,"featured_media":46691,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[6238,245],"tags":[6239,6180,6170,6246,2338,6158,1729,2399,6245,6244,4187,6200,1678],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46605"}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/users\/104"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46605"}],"version-history":[{"count":5,"href":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46605\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":46721,"href":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46605\/revisions\/46721"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46691"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46605"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46605"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornaldocampus.usp.br\/index.php\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46605"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}