O aprendizado faz-se na presença do outro

 

por João Mello

Arte: Mayara Prado/Fotos: João Mello

 

Enquanto escrevo isto, já estamos há 17 meses buscando conviver com a pandemia. Uma convivência indesejada que nos fez acostumar com as palavras “EAD” e “homeoffice”. O que antes eram nossos cotidianos, espaços e convivências tornaram-se telas, distâncias e uma grande construção social do Google Drive. Escrevo para o “Jornal do Campus” convencido de que, nesse momento de nossas vidas, não existe “Campus”.

Também sigo convencido de que os professores fizeram tudo aquilo que estava em seus alcances. “Ensino à distância” é algo que já vem sendo discutido há muitos anos, mas tivemos todos que nos adaptar, no improviso, a esta forma de aprender. E os professores, que possuíam estrutura e planejamento para o presencial, tiveram de subitamente se adaptar a esta forma de ensinar.

O que eu me questiono, entretanto, é para onde vão os nossos aprendizados que perpassavam o conteúdo das aulas. De alguma forma, fomos capazes de preservar a exposição de conteúdos, a leitura, os slides, os horários, os trabalhos, as provas. Mas me recuso a pensar que a Universidade seja exclusivamente sobre isso. Talvez esses elementos possam nos fazer adquirir conhecimento sobre uma área específica, mas eles não podem nos ensinar a sermos profissionais e seres humanos melhores. Esse aprendizado faz-se no outro. 

Os professores me diziam, na sala de aula, que o Jornalismo é, essencialmente, sobre escuta. Escutar para entender o que o outro está falando, colocar-se em seu lugar, e, assim, perceber as dores, injustiças e aflições que torturam os nossos tempos. Mas foi fora da sala de aula onde eu efetivamente aprendi a escutar. Comecei tímido, escutando conversas de corredores e pausas para café. Depois, passei a escutar a aleatoriedade dos encontros. Entrei em contato com escutas de outros cursos de graduação, outros institutos, outras universidades, outras vidas. 

Na Universidade, éramos constantemente forçados a conviver com o outro. Convivi com pessoas que jamais imaginaria conhecer e que agora tenho o prazer de chamá-las de amigas. Pessoas que pensavam de uma forma totalmente diferente da minha, traçaram trajetórias muito distintas para chegarem no lugar onde estavam e enxergavam a vida sob uma outra perspectiva. Foi no encontro com essas pessoas que eu moldei aquilo que sou hoje.

Justamente por isso me coloco aqui como um defensor da aleatoriedade, causada pela ausência de controle dos encontros que apenas uma vida presencial pode produzir. Tive o privilégio de passar dias inteiros de 2019 frequentando a Cidade Universitária e constantemente encontrando-me com o aleatório. Com esses “aleatórios”, descobri áreas do conhecimento, recebi indicações de produtos culturais, escutei histórias inspiradoras e ainda aprendi a usar o Adobe Illustrator. Os aleatórios tornaram-se familiares.

Uma vez, em uma festa, vi de longe uma garota girando um bambolê. Obviamente fui até ela, pedindo para girar o bambolê. Parei para escutar essa garota e descobri que ela tinha acabado de voltar de um mochilão pela América Latina, e agora fazia um curso na ECA enquanto economizava dinheiro para fazer outro pela Europa. Não me lembro seu nome, mas sei que com ela aprendi que alguns riscos valem a pena se for pelos seus sonhos. Se você está lendo isso agora, garota do bambolê, espero que esteja bem e em Côte d’Azur.

Em outra festa, fui barrado de entrar. Eu e minha amiga ficamos na frente do local, esperando que o aleatório magicamente nos colocasse do lado de dentro. Acabamos conhecendo um grupo de pessoas que estudavam no Rio de Janeiro e que se encontravam na mesma situação. Saímos pela rua buscando por uma festa que não existia e acabamos fazendo a nossa própria. E aprendemos a nos divertir, mesmo quando tudo dá errado. Tony, se você está lendo isso, saiba que eu estava, sim, dando em cima de você. 

Com algumas dessas pessoas que encontrava ao acaso, edifiquei relações que tenho a segurança de dizer que ainda durarão por muitos anos. Pessoas que, em conversas e experiências, fizeram com que eu criasse novos interesses e descobrisse coisas novas, não apenas sobre o mundo, mas sobre mim mesmo. Uma vez, conversando sobre isso com uma amiga que faz Pedagogia, ela me mostrou o trecho de um artigo que acredito resumir bem o que quero dizer: “O encontro é uma ferida. Uma ferida que, de maneira tão delicada quanto brutal, alarga o possível e o pensável, sinalizando outros mundos e outros modos para se viver juntos” (João Fiadeiro e Fernando Eugénio). 

Hoje, nossa convivência tornou-se profundamente seletiva. Comparecemos em aulas on-line, muitas vezes não mostramos os nossos rostos ou nossas vezes. Algumas vezes, nem mesmo estamos lá. Quaisquer interações que desejem sobreviver à lógica do EAD, precisam passar pelas redes sociais, nas quais é possível escolher com quem interagimos, ter total controle sobre nossa própria imagem e, literalmente, bloquear o que não gostamos, não conhecemos e não desejamos escutar.  Tendemos a selecionar o similar, abdicando-nos do aleatório e tornando-nos indiferentes ao diferente. 

Antes, acreditava-se que a tecnologia nos pouparia tempo e faria com que pudéssemos usufruir de um ócio criativo, fundamental para os gregos antigos e para nossa criatividade. Entretanto, estamos nos submetendo à lógica do estudo e do trabalho constantes. Se nossas casas são nossos novos escritórios e salas de aula, estamos sempre trabalhando e estudando. Vertente de teoria social nascida na Alemanha, a Escola de Frankfurt adiantou, em sua Dialética do Esclarecimento, que a tecnologia não seria capaz de nos emancipar. Agora, vemos que ela tem nos aprisionado. 

Sinto vontade de voltar para o presencial, para a lei dos encontros aleatórios, e de voltar a aprender com aqueles que estão ao meu redor. Por isso mesmo me dói o coração ter o entendimento de que ainda não chegamos nesse momento. Enquanto universidades avaliam a volta de suas atividades presenciais, a variante Delta do novo coronavírus (mais transmissível e que parece “furar” a primeira dose das vacinas) espalha-se silenciosamente, da mesma forma que as primeiras cepas no começo de 2020. Ainda, sinto raiva daqueles que julgam as vacinas (ou certas vacinas) como conspiração. Talvez por falta de aprendizado, essas pessoas atrasam o aprendizado de todas as outras.