A performance do outro é sempre melhor que a minha

Abusando de estereótipos, performáticos da USP questionam identidades e levantam a pergunta: quem está rindo de quem?

Fotomontagem por Luiza Miyadaira

Por Maria Eduarda Oliveira

Se você anda por aí com uma ecobag, bottoms, tem um corte de cabelo no estilo shaggy hair e toca algum instrumento de corda, poderia ser uma das cerca de 30 candidatas e público que estiveram presentes na competição “sáficas performáticas” realizada no vão mais emblemático da Universidade de São Paulo, o da Faculdade de História e Geografia.

À primeira vista, um concurso como esse pode parecer um tipo de piada que incentiva estereótipos, mas tratava-se de uma celebração organizada pelo coletivo Lesbicusp, integrado por pessoas sáficas — um termo geral para definir mulheres que sentem atração por mulheres.

Começou como uma brincadeira entre amigos, mas a necessidade de se criar um espaço de acolhimento foi crescendo. “Logo percebemos que não era só a gente que tinha essa vontade de se sentir pertencente e decidimos continuar juntando pessoas sáficas da USP”, conta Sofia Franco, uma das fundadoras.

Nem a chuva incessante do dia conseguiu impedir o evento, que começou com mais de uma hora de atraso. Ainda assim, aos poucos o vão foi sendo ocupado por algumas dezenas de pessoas, majoritariamente mulheres, em pé e sentadas ao redor de uma caixinha de som e um microfone pequeno que pouco se ouvia no eco do espaço. A cada nova apresentação no meio da roda de pessoas, o público gritava e celebrava cada demonstração performática das competidoras.

Noto que os objetos apresentados variavam entre livros de Clarice Lispector, DVDs da Gal Costa, botas de couro, plantas e instrumentos de corda diversos. São todos arquétipos do que se considera sáfico e feminino, mas com o sentido de subversão.

A ideia original desse tipo de competição surgiu nos Estados Unidos, inicialmente como uma batalha de sósias em que pessoas similares a famosos competem para escolher quem é mais parecido. Mas a coisa se transformou e ganhou novas camadas dentro da comunidade queer. Com a palavra “performática”— usada para descrever indivíduos que agem e consomem determinadas coisas para parecerem algo — ganhando força nas redes sociais, o modelo de disputa de performance ganhou vida.

Os performáticos são parecidos com os posers, expressão usada nos primórdios da internet para se referir a quem fingia curtir e ser alguém que na verdade não era. A diferença é que os performáticos não necessariamente estão mentindo sobre quem são, só claramente mostrando. Eles podem sim gostar de ler apenas livros clássicos de 800 páginas tomando café gelado em um banquinho na praça. Existem diferentes maneiras de se performar e cada uma delas aponta ao que e onde cada um pertence.

Mylene Guedes é estudante de Ciências Sociais e, junto da namorada Bibica, ganhou a categoria casal da competição. Para a batalha, a companheira exibia bermuda jeans largas, camisas listradas e um all star com meias coloridas, expressando uma identidade mais masculinizada. Enquanto isso, Mylene usou um vestido longo verde musgo — apontado na internet como a cor das lésbicas — com jaqueta jeans, mas não se considera uma lesbica performática, só “quando se esforça”, brinca. Para Mylene, ela é mais do nicho performático “garotas negras estilosas”. Sim, existe um tom cômico na coisa, mas quando mulheres podem ver outras mulheres desfilando suas personalidades e gostos com orgulho, também existe um laço invisivel de comunidade.

O diretor de teatro e doutorando em Artes Cênicas na Escola de Comunicação e Artes (ECA) da USP, Oliver Olivia, diz que a performance também tem a ver com a necessidade de se conectar e fazer com que o outro nos valide. “Isso vem da psicanálise no sentido de que você já nasce com alguém dando um nome e uma linguagem que não é sua. A gente é criado a partir do outro”.

A busca por identidade cerca toda a experiência humana. Desde o nascimento somos (comumente) definidos como “meninos” ou “meninas”, identidades que ditam o que supostamente devemos ser ou não. Judith Butler, referência no estudo de gênero e sexualidade, afirma que a imposição desses papéis é parte de uma construção social, não algo inerente ao ser humano. Os estereótipos nos forçam a assumir identidades que não são nossas, mas sim resultados do nosso ambiente. Portanto, performamos o que é imposto. Mas, se os coletivos estabelecem rótulos, também podem acolher. E libertar.

*Editado por Lorenzo Souza