Dupla de restaurantes existe há mais de dez anos e é símbolo de integração, histórias caóticas e (muita) cerveja

Por Lorenzo Souza e Maria Luiza Negrão
Se estiver depois das 21h no fim da avenida Valdemar Ferreira, no Butantã, preste atenção: você pode encontrar uma série de universitários, sentados em cadeiras de plástico, envoltos em música alta, pizzas, jogos e diversas bebidas. Conhecido como Beco da USP, o espaço funciona como centro de integração universitária, seja para calouradas, festas de aniversário, pós-jogos ou apenas desestressar após as aulas.
A avenida tem dois locais principais: o restaurante Beco da USP e a Pizzaria Europa. Ambos ficam lado a lado, um no número 55 e outro no 53. São eles os responsáveis por atender os estudantes que chegam todas as noites. Dentro da Europa, o dono Cícero Silvestre Izidoro, ou Ciço, como é chamado, leva copos, bebidas, pizzas e outros itens para as mesas.
Ciço começou a trabalhar em 1989 como ajudante de serviços gerais na região da Faria Lima. Logo passou para o ramo dos restaurantes e, em 2015, comprou o ponto comercial que hoje é a Europa. Ele relata que, apesar da vida dura, ela é bem divertida. “Tenho uma boa relação com eles [os estudantes]”. Em dias agitados, como as sextas-feiras, o público universitário — majoritariamente uspiano — pode chegar a 140 clientes atendidos. “A maioria tem menos de 30 anos.”
Ao lado da pizzaria, está o restaurante Beco da USP — nomeado quando os donos notaram que o espaço é em uma rua sem saída e a clientela é de estudantes da USP — comandado por Paulino Reinaldo de Souza. O Beco, assim como a Europa, recebe diariamente centenas de estudantes. Com frequência, rodas de samba são organizadas e tocam noite adentro (ou até as 1h, que é quando o estabelecimento fecha). Quando a rua fecha, os restaurantes se misturam com as cadeiras e mesas e formam um grande trecho da avenida recheado de pessoas.
Sem estudantes, não há Beco. Na Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA), todo início de ano, a atlética promove um Beco dos Bixos, festa que é comum em outras unidades. “Tradicionalmente é na semana que sai a primeira lista da Fuvest, então é a primeira vez que eles conhecem os veteranos e os outros calouros”, diz a aluna de Administração Helena Maesano.
Também participante da gestão da atlética da FEA, Helena ressalta que “é muito importante manter essa cultura viva”. No contexto da unidade, o Beco é o caminho em várias situações. “É o ponto de encontro pré-rolê, o famoso esquenta, onde ir após a aula, o lugar para comemorar uma vitória ou para esquecer de uma derrota.”
Amor à primeira bebida
Christian Faccio, de 33 anos, ingressou na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) em 2010 e usa o beco como espaço de comemoração até hoje. Ele relata mudanças desde o início da sua graduação, como a migração de algumas festas universitárias que aconteciam no campus para o beco. “A gente fez muita amizade com ele [o Ciço] e ia sempre lá, mesmo ele não dando saideira, [porque] ele sempre recebia e tratava a gente super bem”, conta ele.
Já Isabela Guasco, de 30 anos, entrou no curso de Relações Públicas da Escola de Comunicações e Artes (ECA) em 2014. Ela fazia parte do time de futsal feminino da ECA durante a graduação e também era frequentadora assídua do beco, que era uma parte da equipe: “a gente brigava no treino e se conciliava na pizzaria”.
Christian e Isabela se conheceram em 2014 – não no beco, mas em uma festa na ECA. Na época,Christian treinava o time de futsal masculino da Escola enquanto ela jogava no feminino. Depois de um tempo se “enroscando”, nas palavras de Isabela, o casal oficializou o namoro em 2022. E o beco pode não ter sido o início, mas foi um ponto crucial para os dois: no começo deste ano, Christian pediu Isabela em casamento ali, no meio de uma roda de samba. “Para mim, foi muito mais uma oportunidade de estar junto com todo mundo que a gente ama”, comenta ele.
Mesmo depois de formados, os dois ainda frequentam a pizzaria. O motivo, provavelmente, é o dono dela. “Ele ganhou a gente no carisma mesmo”, opina Christian.
Entre a época de estudante e a fase de noiva, Isabela destaca que “uma coisa que, graças a Deus, não mudou muito foi o preço da cerveja”.
Ninguém fica de fora
Localizada no centro da cidade de São Paulo, a Faculdade de Direito (FD) fica a mais de 10 quilômetros do beco, mas a distância não impede a calourada. Na verdade, nem o clima impediu a calourada, segundo Davi Athaíde, que ingressou na FD este ano.
Ele conta que o evento aconteceu no beco, junto com a integração da Escola Politécnica (Poli) e da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF). Choveu. “A gente tinha se pintado todo e melecou com a chuva, a gente dançando, conhecendo todo mundo. Foi uma vista de primeira de um mundo de faculdade bem legal”, lembra.
Apesar da limitação geográfica entre os campi, que impede mais convivência, a magia do beco é compartilhada mesmo fora do Butantã. “Eu sinto que lá, nesse lugar apertado que você bate cadeira com gente de tudo que é lugar, você se sente acolhido”, afirma Davi.
Quer entender mais sobre as tradições do beco? Ficou curioso para saber mais do pedido de casamento? Então confira o podcast especial do JC no Spotify: https://open.spotify.com/episode/7nkFhzwBz0aD0eDRFajhoS?si=xmEV52fxSl-3OPNpUy9Bxg
*Editado por Daniela Gonçalves
