Reabre o Cine Bijou, em clima de cinefilia e resistência

Roberto Fernández, cineasta, diante a bilheteria do Cine Bijou. (Foto: Pedro Graminha)

Frequentado por uspianos durante a ditadura, cinema retorna dialogando com os novos tempos

Por Pedro Graminha

A história do Cine Bijou é de resistência. Durante a ditadura militar – período em que as liberdades individuais eram fortemente controladas e obras de arte, livros e filmes, censurados – espaços como o do cinema foram importantes para estabelecer debates e contornar a repressão daqueles anos. Muito frequentado por alunos da USP, sobretudo os da Faculdade de Filosofias, letras e Ciências Humanas (FFLCH), à época ainda localizada no prédio da Rua  Maria Antônia – o Bijou manteve-se fechado, até ser resgatado no ano de 2017 pela iniciativa do cineasta Roberto Fernandez e do Secretário Geral dos Direitos Humanos do Partido dos Trabalhadores (PT), Adriano Diogo.

“O Bijou foi minha escola de formação política. Era um pequeno cinema de esquerda que passava de tudo, até filmes perigosos, que o Regime Militar via com maus olhos”, conta Adriano Diogo, também ex-aluno da Universidade de São Paulo. “Ele ficava perto do Maria Antônia, do teatro de Arena, do Oficina. Era um polígono da Cultura. Até cara procurado pela repressão vinha ver filme aqui, para fugir da marcação”.

Adriano e Roberto começaram a parceria através de ciclos de cinema e debate voltados à temática dos direitos humanos. A ideia voltou-se então para a criação de um cineclube. Nisto, resgataram a memória do Cine Bijou. “A gente faz a homenagem e traz um espaço de resistência, de debate” conta Roberto.

O atual cinema funciona onde era uma das antigas salas do Bijou e o cineclube Oscarito, hoje, teatro Henley Guariba. Ao final de cada uma das sessões da mostra temática à filmes de jornalismo (contando com clássicos como Cidadão Kane de Orson Welles e Profissão: Repórter, de Antonioni) é feito um debate com os espectadores e convidados especiais.

O Bijou também resgata a tradição dos cinemas de rua, muito raros nos dias de hoje.  Com a atual dinâmica de mercado muito mais orientada ao entretenimento, sem estimular uma reflexão aprofundada sobre as obras, esse tipo de cinema dá espaço a filmes mais autorais. “São filmes que podem passar 100 anos e vão continuar atuais, como o Metrópolis, do Fritz Lang”, conta Roberto. Outro objetivo é também dar visibilidade ao trabalho de novos diretores.

Por enquanto, as sessões acontecem somente aos sábados, as 15h, com ingressos custando R$ 10,00 . É possível comprar uma carteirinha que dá acesso a todos os filmes da mostra por R$ 50. Os realizadores têm grandes expectativas para as sessões do próximo ano, com mais datas, e intencionam formar um público cativo e participativo. “Pessoas que tenham necessidade de falar sobre as coisas de atualidade, do Brasil. Esperamos poder formar um espaço de resistência, de batalha”, conta Roberto.

Próximas Sessões do Bijou:

18-11 Capote

25-11 A montanha dos sete abutres

02-12 O quarto poder

09-12 Profissão: Repórter

16-12: O preço de uma verdade

Cine Bijou: Praça Roosevelt, 184.