Pode passar, Moisés

Há 40 anos, radialista comanda o programa musical “O Samba Pede Passagem”

Por Rafael Paiva

Foto: Rafael Paiva

Cantor, piloto de avião e até pastor: todos esses cargos passaram pela cabeça do jovem Moisés da Rocha na década de 50 do século passado. Por causa das coincidências da vida e do timbre de voz privilegiado, no entanto, o filho de Ourinhos, interior paulista, tornou-se o porta-voz do samba nas rádios da capital.

Presença marcante nas comunidades, festividades e rodas de samba, Moisés abriu caminho e entrou nos mais distintos lares com o que há de melhor do ritmo que representa o Brasil. Novatos e baluartes, ao longo dos últimos 40 anos, puderam mostrar seus trabalhos no programa criado na Rádio USP FM (93,7 MHz).

A relação do locutor com o samba é natural. Frutos da miscigenação, pai e mãe da singularidade nacional, a dupla formou uma amizade que “nem mesmo a força do tempo irá destruir”, como canta o grupo Fundo de Quintal.  

Para além do aspecto musical, a atração sempre esteve atenta aos acontecimentos sociais. Não à toa que informes sobre as comunidades eclesiais de base, as representações sindicais e o Movimento Negro Unificado (MNU) ganharam espaço na programação, mesmo no período ditatorial.

“O Samba Pede Passagem nunca foi só um vitrolão. Sempre foi um programa de muito conteúdo. Antenado com os problemas sociais. Lutando contra as injustiças. Sempre do lado do povo”.

Frente a frente

A conversa entre o radialista e o entrevistador ocorreu em um pequeno espaço, no qual puderam se sentar um defronte ao outro, separados por uma mesa com teclado, telefone e outros instrumentos típicos de um escritório. O local pareceu mais adequado do que a sala existente a poucos passos dali, repleta de cds, revistas e livros empilhados, onde as primeiras palavras foram trocadas.

Com fala tranquila e sempre olhando nos olhos, Moisés respondeu tudo. Ao falar sobre as pessoas que o ajudaram, não poupou elogios. Para aqueles que interferiram em seu caminho ou no do programa de modo negativo, optou por discursos mais isentos.

Os versos “Eu prefiro acreditar do que duvidar de alguém. Eu não sou de criticar, sou de elogiar, falar bem”, cantados por Zeca Pagodinho, definem bem a impressão que o repórter teve do entrevistado.

Nos bailes da vida

Nascido em 1942, filho de um carroceiro e de uma empregada doméstica, Moisés desde muito cedo entrou em contato com a leitura e com as mais variadas expressões artísticas. Numa região rica em festas populares como a de Ourinhos, o jovem pôde vivenciá-las e extrair suas peculiaridades.

A Igreja Metodista, sobretudo a Escola Dominical, teve um papel fundamental na construção da personalidade do radialista. Nela, aprendeu a “ser orador, a falar, a cantar, a congregar, a conviver com as outras pessoas, entre outras coisas”.

A sua inserção no meio radiofônico prova a máxima que diz: “estava no lugar certo e na hora certa”. Interessado em uma faixa horária para realizar um programa parecido com “A Voz da Profecia”, junto com o quarteto do qual fazia parte, Moisés entrou em contato com a Rádio Cometa.

No dia e horário agendados por Domingos de Lello, representante da emissora, para resolver a questão via telefone, a futura voz do samba recebeu um inesperado convite. “Rapaz, aconteceu um negócio difícil de acontecer. Um locutor pediu demissão. Ouvindo a sua voz, acho que cairia bem. Você não quer fazer um teste aqui?”.

O pontapé inicial da relação entre Moisés e a locução passou a ser dado a partir daquele momento, no ano de 1967.

O inesperado bateria na porta do ourinhense outra vez e interferiria na história de um dos maiores grupos do segmento no país na década de 80. Em contato com o músico Nelson, do Samba lá de Casa, no Bar Itapuã, lhe foi apresentado o primeiro disco de um grupo do Rio de Janeiro que tocava de modo diferente.

Antes de reproduzi-lo no programa, Moisés disse as seguintes palavras aos ouvintes: “Tem um disco novo que vou tocar agora. Se for bom, a gente toca sempre. Se não for bom, a gente não toca nunca mais”. O disco fez um sucesso tremendo e foi tocado nos dias seguintes. O conjunto? Fundo de Quintal.

Desdobramentos

Em meados da década de 80, a “Caravana O Samba Pede Passagem”, organizada em parceria com a Secretaria da Cultura do Estado, realizou apresentações nos mais diferentes espaços da Grande São Paulo.

Representantes das velhas guardas das escolas e novos nomes do samba foram apresentados ao público. Mestre Marçal, Mestre Talismã, Thobias da Vai-Vai, Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra e Boca Nervosa foram alguns.

A banda fixa dos eventos era comandada por Osvaldinho da Cuíca e contava com as participações de Mário Sérgio, no banjo, que viria a fazer parte do Fundo de Quintal, e Branca di Neve, no surdo. Ambos, ao longo do tempo, tiveram a oportunidade de se apresentarem de maneira solo.

Na foto, Moisés da Rocha com seus amigos do samba (Reprodução/Acervo pessoal)

A importância de Moisés da Rocha é tanta para o samba que a “Cidade Maravilhosa” precisou calçar as sandálias da humildade e prestigiar o trabalho feito por um paulista. Contratado para fazer a direção musical da Rádio Carioca AM, que tocaria 24 horas de samba, o radialista tornou-se responsável por selecionar os trabalhos da programação. Quando não estava no Rio, as produções eram enviadas a São Paulo.

Fora isso, “O Samba Pede Passagem” obteve espaço na emissora local e, segundo o apresentador, foi um sucesso, sobretudo nas comunidades. “Foi muito legal essa fase. Dominou o Rio de Janeiro. O carioca não comenta nunca isso”.

Citado na música Voz Ativa, do grupo Racionais MC’s, entre as referências negras, Moisés da Rocha, em diversos momentos da conversa, fez analogia do racismo com o sistema de castas. Na contramão do que observou e vivenciou ao longo da vida, o apresentador não permite que músicas de duplo sentido sejam tocadas no programa.  

Em relação ao seu papel na sociedade, o radialista foi taxativo. “Plínio Marcos dizia sempre e me ensinou que ‘ninguém vem aqui a passeio’. Eu também não quero vir aqui a passeio. Estou cumprindo a missão sempre. A minha obrigação é dividir, ser solidário, lutar contra injustiça social, inquietar e incomodar, sim, se for necessário, para transformar a sociedade em algo mais justo, solidário e fraterno. Isso, muitas vezes, pode acabar custando a vida da gente. Mas faz parte também da caminhada. Não serei o único, nem o primeiro, nem o último. Infelizmente”.