Especial EAD: Centros Acadêmicos auxiliam durante incertezas da pandemia

As medidas tomadas vão desde levantamentos sobre a condição de estudantes durante a pandemia até a contribuição financeira para os de baixa renda

Por Mariana Cotrim

Aulas a distância trazem necessidade de comunicação entre corpo discente e professores, facilitada por centros acadêmicos. Imagem: Samantha Prado

Esta matéria faz parte do Especial EAD. Nesta edição, reunimos alguns dos temas que despertaram discussões a respeito do ensino à distância em tempos de isolamento social. Os links de todas as matérias podem ser acessados a seguir.

Frente às dificuldades que surgiram após a suspensão das aulas presenciais, vários centros acadêmicos tentam buscar formas de amparar alunos e garantir a comunicação com seus institutos. No início das medidas restritivas impostas pela USP, o CAVC, da FEA, fez um formulário para estudar o perfil geral de seus estudantes. As perguntas abordavam o acesso à internet, familiaridade com a plataforma Zoom (principal canal das aulas no instituto) e também a posição dos estudantes quanto às aulas on-line.

De acordo com o relatório publicado, o ponto inicial da análise deveria ser em relação à desigualdade no acesso de meios digitais para as aulas. As pesquisas mostraram que 5,1% dos estudantes participantes só contavam com seus celulares para assisti-las e dois alunos não tinham acesso a celulares ou computadores. Após a distribuição de equipamentos para os que encontravam dificuldades, a gestão está refazendo a pesquisa para tomar par da situação que sucedeu a iniciativa.

 

Levantamento feito pelo CAVC mostra situação de alunos quanto sua acessibilidade

 

Além desse relatório, o CAVC também disponibilizou um formulário de denúncias, por meio da representação discente. De acordo com o presidente da gestão, Bernardo Santana, “todas as informações recebidas foram passadas para os coordenadores de curso da FEA e, em casos mais urgentes, para a diretoria”. Entretanto, ele diz que a maioria dos casos vieram de outros institutos, o que dificultou a resolução dos problemas.

O fato de matérias serem ministradas por outros institutos representou um desafio extra não só para a FEA. Vinícius Lopez, presidente do Grêmio da Escola Politécnica, afirmou que, comparando os cursos das engenharias, alinhar decisões em matérias do ciclo básico era mais difícil, justamente porque professores que dão aulas nessas disciplinas são de unidades como Física e IME.

Similar ao centro acadêmico da FEA, o CA XI de Agosto, da Faculdade de Direito, realizou um levantamento dois meses após a adoção das aulas à distância. Nele, alunos responderam sobre aspectos das aulas e as dificuldades enfrentadas durante o período de isolamento social. Thiago Moraes, membro da gestão atual, afirmou que, após a coleta das respostas, o CA sentiu a necessidade de formar um posicionamento e, a partir dele, iniciar um projeto de debates na faculdade.

O primeiro passo dessa iniciativa foi a realização de uma live, em que o diretor da Faculdade de Direito, Floriano de Azevedo Marques Neto, ouvia às queixas do corpo discente. Segundo Thiago, a live teve como motivação a falta de comunicação dentro da faculdade. Para ele, “os alunos não estão opinando sobre como vai ser o curso EAD, muitas das coisas mudaram nesta situação e as relações que estão sendo estabelecidas, tanto entre professores como entre a própria diretoria, é muito hierárquica. As decisões vêm de cima pra baixo, e muitas vezes, não são contestadas”.
A conversa rendeu bons resultados. Além de reconhecer o aumento demasiado da carga de trabalho, um dos pontos mais criticados por alunos, o diretor se propôs a receber denúncias anônimas sobre matérias e encaminhou a pesquisa feita pelo centro acadêmico a outros professores, para que suas atividades fossem pautadas nela.

Na Escola Politécnica, o contato entre representantes do grêmio e departamentos foi intenso. Ambos fizeram, em conjunto, levantamentos sobre o andamento das disciplinas de forma a tentar identificar irregularidades e resolvê-las com certa agilidade. De acordo com Vinícius, o saldo geral da transição para as aulas online pode ser considerado positivo, contando com muita cooperação e vigilância para os problemas que surgissem.

Ajuda ultrapassa levantamentos e comunicação

As atividades dos centros acadêmicos não se limitam somente à divulgação de dados e contato com diretoria e coordenação, mas também à preocupação com alunos que não possuem ferramentas para assistir às aulas on-line. O Centro Acadêmico da Farmácia e Bioquímica, por exemplo, tomou uma série de medidas para dar suporte aos que os procuraram.

Segundo seu presidente, Caio Marcelo Lourenço, foram fornecidos computadores, com a ajuda da faculdade, e também auxílio financeiro para alunos em vulnerabilidade social que os procuraram. Em março, o centro acadêmico ajudou cerca de sete alunos que necessitavam de computadores para seguir com suas aulas. Além de alguns disponibilizados pela faculdade, houve a necessidade de comprar e receber doações de alunos e ex-alunos.

Além do empréstimo de equipamentos, o auxílio financeiro surgiu da ideia de substituir cestas básicas por um valor mensal. De acordo com Caio, “entregar uma cesta básica poderia não atender às necessidades dos assistidos, uma vez que teríamos de escolher uma composição de produtos que seria a mesma para todos e, em razão do distanciamento social, nós encontramos um problema logístico para distribuir materiais”.

Desde abril, 23 estudantes recebem, mensalmente, R$ 100,00, sendo 15 alunos do cursinho popular da faculdade e oito, alunos da graduação. O auxílio estava previsto para durar três meses, mas, com o agravamento do cenário atual no país, ele foi prorrogado para mais dois.

Na Escola Politécnica, também foram doados computadores e modems de internet para alunos que precisavam. Segundo o presidente do Grêmio, logo no começo das medidas restritivas foi feito um levantamento de pessoas que não conseguiriam acompanhar as aulas. Para ele, foi imprescindível a colaboração entre grêmio, centros acadêmicos e coletivos dentro da instituição para identificar o máximo de alunos que precisavam de amparo. As comissões de graduação fizeram com que não fosse exigida nenhuma avaliação enquanto os computadores eram transferidos aos assistidos.

Outros centros acadêmicos têm tentado ajudar pessoas em situações precárias com arrecadações e distribuição de alimentos. O CAAVC, da Fofito, está arrecadando alimentos para o bloco das mães, no Crusp, e para alunos que estão em situação emergencial.